joão tegoni
16 de março de 2026
Smiljan Radić vence o Pritzker 2026 | Entre peso e leveza, uma arquitetura de potência #46
época de prêmios, o que é o Pritzker?
E claro, depois de falar de alguns dos pôsteres dos filmes que estão concorrendo ao Oscar este ano, nós, arquitetos, inevitavelmente acabamos chegando ao chamado “Oscar da arquitetura”: o Prêmio Pritzker. A comparação é conhecida, mas continua útil para marcar o peso simbólico da premiação. Criado em 1979, o prêmio se consolidou como o principal reconhecimento internacional da disciplina. O júri reúne arquitetos, críticos e intelectuais de diferentes áreas, entre eles atualmente o diplomata e ambientalista brasileiro André Aranha Corrêa do Lago.
O laureado deste ano é o nosso hermano latino-americano, o chileno Smiljan Radić. Ao longo de três décadas de trabalho, Radić construiu uma obra que escapa a classificações rápidas. Seus edifícios frequentemente parecem reunir qualidades opostas. Podem ser maciços e leves ao mesmo tempo, brutos e sofisticados, quase provisórios e ainda assim duradouros.
raízes pelo mundo
Em muitos vencedores do Pritzker é possível observar uma trajetória que, com o tempo, consolida uma linguagem reconhecível. No caso de Radić ocorre algo diferente. Sua arquitetura não se fixa em um repertório formal previsível. Cada projeto reorganiza materiais, estruturas e atmosferas de maneira particular, como se a cada obra fosse necessário formular novamente o que um edifício pode ser.
"Algumas vezes, você tem de produzir suas próprias raízes. Isso te dá liberdade" diz Radic em sua entrevista ao Pritzker
Essa postura pode ser compreendida também a partir de sua biografia. Radić nasceu em Santiago em uma família marcada pela migração. Seus avós paternos vieram da ilha de Brač, na Croácia, enquanto os maternos tinham origem britânica. Essa condição híbrida aparece em muitas entrevistas do arquiteto como uma experiência de pertencimento construída ao longo do tempo, menos ligada a uma identidade fixa.
Fonte: Teatro de Biobio por Maria González
Radić estudou arquitetura na Pontifícia Universidade Católica do Chile e concluiu sua graduação em 1989. Antes disso chegou a reprovar na primeira tentativa do exame final, algo como nosso TFG, episódio que acabou abrindo um período de viagens pela Europa. Entre essas experiências esteve uma passagem pelo Istituto Universitario di Architettura di Venezia. O próprio arquiteto costuma dizer que essas viagens tiveram um papel decisivo em sua formação. Foi nesse período que filosofia, literatura e referências mitológicas passaram a fazer parte de seu repertório.
Fonte: Vinícola VIK por Cristobal Palma / Estudio Palma
Em 1995 ele fundou seu escritório em Santiago e desde então manteve deliberadamente uma estrutura pequena de trabalho. Mesmo após alcançar reconhecimento internacional, Radić preservou um ateliê de escala reduzida, onde os projetos amadurecem com tempo e discussão.
Nesse período ele também conheceu a escultora Marcela Correa, que se tornaria sua parceira de vida e colaboradora frequente. A presença da escultura em seu universo aparece sobretudo na maneira como massa, peso e materialidade são manipulados nos edifícios. Em muitos projetos, o volume parece trabalhar como um objeto colocado na paisagem, quase como uma peça apoiada sobre o terreno.
Fonte: Restaurante Mestizo por Gonzalo Puga
Ao longo dos anos, o trabalho de Radić transitou entre diferentes escalas e programas. Residências isoladas na paisagem chilena convivem com edifícios culturais, instalações e estruturas temporárias. Um exemplo dessa dimensão experimental foi a instalação The Boy Hidden in a Fish (inspirada na obra homônima de David Hockney), apresentada na Venice Architecture Biennale de 2010. Construída em granito e cedro, a peça funcionava como uma massa compacta que se abria internamente para acolher visitantes. A obra situava-se entre escultura, abrigo e arquitetura.
Fonte: The Boy Hidden in a Fish por David Hockney
Fonte: The Boy Hidden in a Fish por Wikipedia Commons
A projeção internacional de Radić ganhou maior visibilidade com o Serpentine Pavilion de 2014 em Londres. O projeto consistia em uma estrutura translúcida de fibra de vidro apoiada sobre grandes blocos de pedra. A membrana leve parecia repousar sobre os apoios minerais de forma quase improvisada. O resultado produzia um espaço difícil de definir de maneira única. Ao mesmo tempo pavilhão, instalação e refúgio.
Fonte: Pavilhão Serpentine por Iwan Baan
Essa ideia de refúgio aparece com frequência nas reflexões do arquiteto. Radić costuma distinguir abrigo de refúgio. O abrigo protege das condições externas. O refúgio cria um espaço que intensifica a experiência interior. Essa distinção ajuda a compreender um aspecto recorrente em sua arquitetura. Seus edifícios raramente procuram dominar o território onde se inserem. Em vez disso estabelecem relações cuidadosas com o solo, com o horizonte e com a paisagem. No contexto chileno, marcado por terremotos e instabilidade geológica, essa postura ganha um significado adicional. Muitos projetos parecem aceitar a condição instável do território como parte da própria arquitetura.
Fonte: House for the Poem of the Right Angle por Gonzalo Puga
Essa sensibilidade também aparece na escolha dos materiais. Em seus edifícios convivem pedra bruta, concreto, madeira, tecidos tensionados e membranas translúcidas. Mais importante que a nobreza individual de cada material são as relações que surgem entre eles. Peso e leveza, opacidade e transparência, permanência e efemeridade aparecem frequentemente combinados no mesmo projeto. Parte da singularidade de sua obra também está na maneira como os espaços são organizados: muitos projetos evitam percursos diretos e sequências previsíveis. Ambientes surgem gradualmente e as relações entre interior e exterior mudam ao longo do percurso.
Fonte: Planta de House for the Poem of the Right Angle por Mies Crown Hall Americas Prize
Em 2017 Radić fundou em Santiago a Fundación de Arquitectura Frágil, instalada no próprio estúdio. A iniciativa promove encontros, exposições e investigações experimentais, funcionando como um espaço de discussão sobre arquitetura e cultura.
Em um momento em que parte significativa da produção arquitetônica internacional busca impacto imediato por meio da imagem, a obra de Smiljan Radić aponta em outra direção. Seus edifícios revelam-se gradualmente, na aproximação com os materiais, no percurso pelo espaço e na maneira como a luz atravessa as superfícies ao longo do dia. O reconhecimento do Pritzker neste ano sinaliza justamente o valor desse tipo de arquitetura: menos interessada em gestos espetaculares e mais atenta à construção paciente de atmosferas, à relação com o território e à capacidade de transformar, de forma sutil, a experiência de habitar um espaço. Às vezes basta oferecer um lugar onde o mundo possa ser habitado com mais atenção.