ale figueiredo e joão tegoni
16 de março de 2026
Pôsteres dos indicados ao Oscar 2026 | leitura pela linguagem do design gráfico #45
pôsteres e filmes
Um pôster de filme precisa condensar uma história inteira em uma única imagem. Entre composição, tipografia, cor e escolha das imagens, o cartaz funciona como um exercício de síntese visual: ele sugere atmosfera, apresenta personagens, indica gênero e estabelece o tom do que o espectador encontrará no cinema.
Neste artigo faremos uma breve leitura das decisões de design gráfico que levaram às composições finais de alguns dos pôsteres indicados ao Oscar deste ano. Essa discussão não está distante da arquitetura. Quando enquadramos uma imagem de projeto ou organizamos uma prancha de apresentação, também estamos lidando com escolhas de composição, hierarquia visual e narrativa gráfica. Em ambos os casos, trata-se de encontrar a forma mais clara e expressiva de contar uma história.
Não daremos spoilers.
Bugonia
Direção: Yorgos Lanthimos
Design do pôster: Vasilis Marmatakis
Curiosidade: O nome Bugonia remete a uma antiga crença grega que explica o nascimento de abelhas a partir de vacas mortas, e é o título escolhido por Lanthimos para este thriller psicológico.
A tipografia de Bugonia é protagonista. Não tem como não sair do filme pensando no significado dela e de onde ela veio. Descobrimos que é uma fonte chamada Churchward Roundsquare, de 2002, do designer gráfico Joseph Churchward. Vasilis Marmatakis, que colabora com Yorgos Lanthimos há muitos anos, encontrou a fonte nos arquivos do Museu da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa e pediu permissão à família para digitalizá-la. Ou seja, uma fonte que poderia ter sido esquecida ganha vida novamente com o filme Bugonia.
Marmatakis conta que a fonte contém tudo o que ele queria para transmitir a atmosfera do filme, pois ela parece monumental, ao mesmo tempo precisa e até um pouco ameaçadora, além de ter certa característica brutalista. Ele também diz que a fonte lhe pareceu futurista, mas de uma forma muito analógica.
O designer desenhou uma série de pôsteres, cada um dá uma pista diferente sobre o filme. O pôster mais famoso de toda a série mostra Emma Stone, atriz protagonista do filme, com a cabeça raspada e o rosto coberto por camadas de substâncias que escorrem pela superfície. Marmatakis quis despertar uma sensação de que não se sabe se ela está em desespero ou em êxtase. As camadas representam a natureza, o mundo e o corpo: há sangue e mel e eles caem sobre ela, representando temáticas do filme.
Uma curiosidade interessante é que mesmo trabalhando com a tipografia digitalizada, Marmatakis utilizou um método completamente analógico: cada título era primeiro impresso, depois pincelado com água e, em seguida, digitalizado novamente: o efeito é ligeiramente borrado, removendo a nitidez da tipografia e contribuindo para o impacto visual.
Frankenstein
Direção: Guillermo del Toro
Design do pôster: James Jean
Curiosidade: A impressão de edição especial do pôster inclui relevo detalhado, aplicações metalizadas e acabamento brilhante. O artista James Jean explica que cada fibra muscular delicada ganha vida sob a luz que muda. A impressão de Frankenstein foi assinada e numerada e ficou à venda por 24 horas, sendo uma edição limitada. A arte é tão especial pois o ilustrador quis corresponder ao que Del Toro disse a ele: que esse filme é o ápice de tudo que ele queria alcançar.
Hamnet
Direção: Chloé Zhao
Design do pôster: BLT Communications, LLC
A composição do pôster de Hamnet é clássica e tradicional, com o texto centralizado e a presença de dois personagens centrais da trama, apresentados em uma linguagem visual que remete à pintura. No centro da arte, forma-se um vazio delimitado pelos corpos dos personagens e orientado pelo olhar do ator Paul Mescal, que interpreta William Shakespeare. Esse vazio pode sugerir a ausência do filho do casal
As cores são menos saturadas e a tonalidade é mais escura, apenas com uma luz dramática que ilumina o topo da cabeça dos personagens, e a expressão de ambos é melancólica, elementos que antecipam o tom do filme. A tipografia serifada escolhida para o pôster é a mesma utilizada na capa do livro homônimo de Maggie O'Farrell, diferindo apenas pelo espaçamento entre letras, ligeiramente menor. Esse tipo de fonte é frequentemente empregado em livros, pois as serifas ajudam a conectar as letras e a criar uma linha de base visual que facilita a leitura. Assim, essa escolha pode remeter ao universo da escrita, já que a história envolve Shakespeare, um escritor. Além disso, como as fontes serifadas costumam evocar uma linguagem clássica e tradicional, a escolha tipográfica também pode funcionar como uma referência estratégica à temática dos clássicos, já que Hamnet se refere a Hamlet, de Shakespeare.
A composição do pôster de Hamnet adota uma estrutura clássica e equilibrada: o título centralizado e dois personagens principais ocupando a imagem em uma construção que remete a uma pintura. No centro da composição surge um vazio, delimitado pelos corpos dos personagens e conduzido pelo olhar de Paul Mescal, ator que interpreta William Shakespeare. Esse espaço central, silencioso, sugere a ausência simbólica do filho do casal, perda que, segundo interpretações recorrentes, teria influenciado a escrita de Hamlet.
A paleta apresenta baixa saturação e tonalidades mais escuras, interrompidas apenas por uma luz dramática que incide sobre o topo das cabeças dos personagens. A moldura formada por flores, folhagens e um pássaro em voo aproxima a composição de uma tradição pictórica decorativa associada ao rococó francês. Aqui, porém, a exuberância ornamental não conduz ao hedonismo característico desse estilo, mas a uma atmosfera contemplativa e melancólica, antecipando o tom trágico da narrativa.
A tipografia serifada utilizada no pôster retoma a mesma fonte da capa do romance homônimo de Maggie O’Farrell, diferindo principalmente pelo espaçamento entre letras, ligeiramente mais apertado. Fontes serifadas são historicamente associadas ao universo editorial, pois favorecem a continuidade visual da leitura. Nesse contexto, a escolha tipográfica dialoga com a origem literária da obra e evoca o universo da escrita e dos clássicos.
A tipografia reforça, assim, a dimensão metatextual da história: Hamnet remete diretamente a Hamlet, a peça shakespeariana em que um filho perde o pai e presencia a ruína de sua família e de seu reino, tema que ecoa no célebre diálogo entre Hamlet e seu amigo Horácio:
HORÁCIO — Vi-o uma vez, um rei divino, de fato.
HAMLET — Um homem, na acepção plena da palavra; jamais poderei ver outro como ele.
Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Pecadores
Direção: Ryan Coogler
Design do pôster: AV Print + Warner Bros. Pictures.
Curiosidade: Foram feitos 33 pôsters oficiais para o filme
Grande parte dos pôsters oficiais do filme indicam o tom sombrio e obscuro que permeiam o filme e trabalham as duas cores chave que trazem simbologias. O azul representa a conexão do personagem Fumaça com o mundo espiritual, a calma e a sabedoria, enquanto que o vermelho, associado ao segundo irmão, Fuligem, evoca sangue, escuridão e perigo.
Um dos pôsters escolhidos tem cores fortes e alto nível de contraste, trazendo dramaticidade e mistério para a arte. O outro, não pôde ser deixado de fora, pois é interessante como remete a uma pintura de Ernie Barnes, The Sugar Shack. O atleta e pintor relata que a imagem vem de seus 13 ou 14 anos, quando teve a experiência de entrar escondido em um show de Rhythm and Blues e viu as pessoas dançando na pista com paixão genuína. O relato sobre a pintura tem forte relação com a temática do filme Pecadores e o pôster remete a ela na paleta, no movimento e nos planos.
O Agente Secreto
Direção: Kleber Mendonça Filho
Design do pôster: Tony Stella
Curiosidade: O ilustrador do poster inspirado na obra de Tarsila do Amaral também foi o autor do pôster norte-americano de Bacurau. O artista é conhecido por transformar posters antigos em pinturas vibrantes e cheias de energia, feitas com a aquarela ou tinta nanquim.
Os dois cartazes do filme "O Agente Secreto" escolhidos por nós são do ilustrador Tony Stella. Um deles é inspirado na obra “Operários”, de Tarsila do Amaral, enquanto o outro destaca as diferentes faces do personagem de Wagner Moura, sugerindo o que a trama irá desenvolver.
A linguagem e a tipografia (serifada) remetem a cartazes políticos e editoriais da época e traz alguns elementos que indicam ironias com as tensões como um selo que diz "serviço de censura de diversões públicas" e as frases que dizem "Brasil, 1977, um tempo de grande travessura" e o outro "Eletrizante. Emocionante. E cheio de pirraça. O filme do ano"
Ainda sobre a tipografia serifada, remetendo à linguagem editorial, sua escolha se alinha aos esforços da equipe cinematográfica para recriar documentos, jornais e cenários para conferir veracidade e contexto histórico à narrativa. A produção utilizou o parque gráfico do jornal Diário de Pernambuco para criar réplicas autênticas da época.
conclusão
Observando esses cartazes em conjunto, também fica evidente como o pôster continua sendo um território fértil para experimentação gráfica, mesmo em uma indústria dominada por campanhas digitais e imagens em movimento. Tipografia, ilustração, fotografia e composição convivem nesses trabalhos como camadas de linguagem que condensam, em poucos elementos, o universo visual de cada filme. Condensando em uma página, 2 horas de vídeo.
Para quem trabalha com arquitetura, esse tipo de exercício é particularmente interessante. O cartaz obriga o designer a tomar decisões muito claras sobre hierarquia, contraste, equilíbrio e síntese: exatamente os mesmos princípios que organizam uma boa prancha de projeto ou a imagem que escolhemos para representar um edifício.
No fundo, tanto no cinema quanto na arquitetura, existe sempre o desafio de transformar uma narrativa complexa em uma imagem capaz de capturar a atenção e despertar curiosidade.