joão tegoni e tânia verri
22 de abril de 2026
Brasília, o ATL e a urgência da Casa da Mulher Indígena #47
Brasília
Ela é feminina, moderna, admirada, madura e com muita vida pela frente. Em 21 de abril, Brasília completa 66 anos. Viva Brasília, que reúne elementos para a celebração. É a grande experiência mundial de planejamento de cidade que sedia a capital federal de uma nação, reunindo o traçado urbanístico de Lúcio Costa e o conjunto de palácios e instituições de Oscar Niemeyer, cuja arquitetura segue dotada de profunda expressividade.
Ainda assim, a capital moderna não está acima de críticas. Nunca esteve. Desde sua criação, nos anos 1960, a capital é atravessada por leituras que tensionam seu monumentalismo, sua promessa de modernidade e as desigualdades que ajudou a organizar ou a tornar visíveis. Talvez seja justamente essa condição que a faça tão importante: Brasília não é apenas imagem acabada, patrimônio reconhecido ou símbolo do poder republicano. É também campo de disputa, espaço de reivindicação, lugar onde a política se torna corpo, presença, confronto e demanda pública.
É por isso que abril, em Brasília, não pode ser lido apenas como mês de celebração. Antes do aniversário da cidade, a capital recebeu o 22º Acampamento Terra Livre (ATL), sob o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”. Mais do que uma reunião de lideranças, o ATL é hoje a principal mobilização indígena do país e uma das mais contundentes expressões políticas da vida democrática brasileira. Ao ocupar Brasília, povos indígenas de diferentes regiões e biomas não apenas levam reivindicações ao centro do poder: eles reinscrevem a capital no mapa vivo dos conflitos que estruturam o país.
foto por: @yrerewafotografia
Acampamento Terra Livre
O ATL devolve a Brasília uma dimensão que o discurso oficial muitas vezes tenta conter: a capital responde à nação, muito além de apenas representá-la. E responder, nesse caso, significa ouvir vozes historicamente silenciadas, reconhecer a gravidade das violências em curso e enfrentar a distância entre o texto constitucional e a experiência concreta dos povos indígenas no Brasil.
As pautas que atravessam o ATL não são periféricas. São centrais. A mobilização denuncia a permanência de ameaças legislativas e econômicas sobre os territórios indígenas, rejeita o marco temporal, se posiciona contra a mineração em terras indígenas, exige demarcações paralisadas e cobra do Estado brasileiro o cumprimento de direitos que não são novos, nem negociáveis. Ao mesmo tempo, o ATL não se reduz à denúncia: ele afirma presença, articulação, inteligência política, memória, produção cultural e futuro.
Quem passa pelo acampamento percebe isso com clareza. Há ali uma potência de expressão que não cabe em nenhuma leitura folclorizante nem em repertório superficial. O ATL é espaço de assembleia, formação, denúncia, ritual, articulação entre gerações, circulação de saberes e afirmação pública de modos de existir que insistem em sobreviver à violência colonial. Grafismos, cantos, línguas, corpos, faixas, discursos, artes e modos de ocupar o espaço tornam visível uma outra pedagogia da capital. Durante esses dias, Brasília deixa de ser apenas sede administrativa e volta a ser aquilo que uma democracia deveria suportar: lugar de escuta, pressão, divergência e transformação.
Nesse contexto, ganha ainda mais força a Casa da Mulher Indígena (CAMI). A CAMI é um equipamento público de acolhimento e reconhecimento de direitos das mulheres indígenas, que será viabilizado por meio de um Concurso Público Nacional de Ideias de Arquitetura. O processo que sustenta o concurso exigiu ampla investigação conduzida por pesquisadoras vinculadas ao Ministério das Mulheres e a Universidade de Brasília, por meio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e, em especial, do Laboratório Mulheres, Arquitetura e Território. Soma-se a isso o apoio de agentes fundamentais para a realização do certame, como o Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento do Distrito Federal (IAB-DF) e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), movimento que reúne mulheres indígenas de todos os biomas brasileiros na defesa dos direitos territoriais, políticos e culturais, e na luta pela garantia da vida.
Casa da Mulher Indígena
A relevância da CAMI se evidencia ainda mais quando observado o cenário demográfico e político do país. O Censo 2022 do IBGE registrou uma população indígena de 1.693.535 pessoas no Brasil, pertencentes a centenas de povos e falantes de centenas de línguas. Também se ampliou, de um censo para outro, o reconhecimento de pertencimento aos povos originários. Mas, quando o recorte é o da violência contra mulheres indígenas, os dados seguem insuficientes, fragmentados e muito aquém da gravidade do problema. O que não aparece de forma clara nas estatísticas dificilmente ganha centralidade nas políticas públicas. E essa invisibilização tem consequências concretas.
É diante dessa condição que a CAMI, ou melhor, as CAMIs, já que a proposta é sua reprodução em seis biomas do país: Caatinga, Pampa, Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, se coloca como iniciativa decisiva. Trata-se da criação de um espaço de acolhimento institucional e simbólico, voltado ao enfrentamento das violências estruturais herdadas do colonialismo, do racismo e do sexismo, mas também à afirmação da autonomia, da dignidade e do direito das mulheres indígenas a políticas desenhadas com elas, e não apenas para elas.
Para a arquitetura, o desafio é profundo. Aqui, o projeto não pode ser reduzido à forma, à imagem ou ao gesto autoral. A CAMI exige leitura territorial, escuta qualificada, responsabilidade institucional e entendimento de que espaço também é política pública. Exige, sobretudo, que arquitetas e arquitetos abandonem respostas genéricas diante de um programa que nasce de uma urgência histórica concreta. Para estudantes e profissionais, o concurso é também uma convocação: participar de um certame como esse significa reconhecer que o desenho arquitetônico pode — e deve — responder a questões de acolhimento, proteção, pertencimento, uso, escala, simbolismo e cuidado.
É nesse ponto que ATL e CAMI deixam de aparecer como temas paralelos. O ATL explicita, em escala urbana e política, a luta indígena por território, reconhecimento e futuro. A CAMI procura dar forma institucional, espacial e programática a uma parte dessa luta, a partir da centralidade das mulheres indígenas. Se o acampamento torna visível a urgência, a casa procura construir permanência. Se o ATL pressiona o Estado na escala da mobilização coletiva, a CAMI tensiona a capacidade do Estado de responder com política pública, arquitetura e compromisso.
Nesse aniversario de Brasília, essa parece ser uma das discussões mais importantes a se fazer sobre a capital. Celebrar a cidade sem ouvir o que o ATL inscreve em seu espaço seria repetir uma leitura incompleta do país. Pensar a CAMI sem reconhecer a força política que atravessa o Abril Indígena seria esvaziar o sentido do próprio concurso.
Entre a cidade monumental e a cidade disputada, entre a memória modernista e as urgências do presente, Brasília nos obriga a perguntar quem pode falar, quem é ouvido e como a arquitetura participa, ou se omite, diante dessa resposta.