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joão tegoni

6 de maio de 2026

Archicad ou Revit? Um comparativo honesto e a nossa escolha #49

introdução

A discussão volta com regularidade, em escritórios, em escolas, em fóruns. Qual BIM ensinar? Qual BIM adotar? Qual BIM domina o mercado? A resposta curta é que ninguém domina sozinho, e a escolha depende de variáveis que raramente entram na conversa: tipo de projeto, tamanho da equipe, sistema operacional, orçamento, e, o que costuma ser o ponto mais importante e menos discutido, qual cultura de produção o escritório quer construir. Este artigo tem duas partes, um comparativo técnico e a história da escolha do Estúdio Módulo. Em uma próxima edição, escrita em parceria com a Erica Tomasoni, BIM manager e sócia do Estúdio Módulo, entraremos nos fluxos de trabalho e soluções concretas que aparecem no dia a dia.

parte 1, o que cada software faz melhor

os números

Revit é o BIM mais usado do mundo. Segundo o NBS Digital Construction Report, lidera consistentemente como ferramenta BIM mais adotada globalmente, com domínio claro na América do Norte, no Reino Unido e em partes da Ásia. Na Europa, os dados do European Architectural Barometer da USP Marketing (Q2 2021) apontam que 45% dos arquitetos europeus usam Revit como BIM e 47% usam AutoCAD como CAD. A Autodesk é, com folga, líder no continente.
 
Archicad é o segundo BIM mais usado globalmente. Cerca de um terço dos arquitetos europeus o adotam como ferramenta BIM principal, com presença forte na Hungria (país sede da Graphisoft), Alemanha (cerca de 27% dos arquitetos), Áustria e Escandinávia, além de Austrália e Japão. Em escritórios de pequeno e médio porte mundialmente, é consistentemente uma das primeiras opções. Somando a participação do grupo Nemetschek, que detém Graphisoft, Vectorworks e Allplan, o conjunto rivaliza ou supera a Autodesk em alguns mercados europeus.
 
A distância entre os dois varia muito por região e por porte de escritório. Em escritórios brasileiros de arquitetura autoral, em particular, a presença do Archicad é maior do que o discurso geral sugere, e voltaremos a esse ponto.

hardware, performance e plataforma

Aqui aparece uma das diferenças mais sentidas no dia a dia. O Archicad é significativamente mais leve no consumo de máquina. No Estúdio Módulo, rodamos edifícios verticais de 36 pavimentos e mais de 20 mil metros quadrados de área construída em Mac Minis M4 na configuração base, com 16 GB de RAM e 256 GB de SSD, a máquina mais barata da linha Apple. Vale notar que a própria Graphisoft classifica essa configuração como entry-level em suas tabelas oficiais, indicando chip M2 Max ou M2 Ultra com 64 GB ou mais para projetos de alto porte. Na prática, a folga de hardware em relação ao tamanho dos nossos projetos é bem maior do que as recomendações sugerem.
 
Para quem vem do Revit, esse tipo de operação soa improvável. A regra usual no mundo Autodesk é a “regra dos 20x”: a RAM do sistema precisa ser aproximadamente vinte vezes o tamanho do arquivo .rvt para o software se manter responsivo. Em projetos do mesmo porte do nosso, isso colocaria 64 GB como mínimo. A Autodesk recomenda 32 GB para uso médio e 64 GB para projetos grandes, e a comunidade considera essas recomendações conservadoras na ponta de baixo.
 
A razão é estrutural. O Archicad separou cedo a representação visual 3D do banco de dados do modelo: o que se vê na tela é renderizado por um motor leve, enquanto o estado de verdade do projeto fica em uma camada própria. O Revit historicamente acoplava as duas camadas, e só agora, com a tecnologia Accelerated Graphics do Revit 2027, está corrigindo a arquitetura. Como observou a Architosh em sua análise, “a Autodesk finalmente desacoplou o estado visual do estado do banco de dados”. Em 2026.
 
A diferença mais relevante, no entanto, é de plataforma. O Revit roda exclusivamente em Windows. As soluções para usar Revit em Mac são todas indiretas: Parallels, virtualização, dual-boot, máquina remota. Funcionam, mas custam em desempenho, em estabilidade e em dinheiro. O Archicad roda nativo em Windows e em macOS (com suporte a Apple Silicon nativo desde a versão 26, e chip M1 como mínimo no Archicad 29). A maior parte dos arquitetos no mundo usa Windows e, pra essa maioria, a discussão de plataforma não pesa. Mas para quem trabalha em Mac, ou quer ter essa opção no futuro, o Revit simplesmente não está em jogo.

modelagem

O sistema de famílias do Revit é uma vantagem consistente. Cada elemento, parede, porta, esquadria, mobiliário, é uma família com parâmetros geométricos e de informação, editável com lógica paramétrica complexa. Para projetos com elementos específicos repetidos centenas de vezes, ou escritórios que padronizam componentes próprios, isso reduz muito o trabalho ao longo do tempo. A coordenação multidisciplinar também é ponto forte: o ecossistema Autodesk foi pensado para que arquitetura, estrutura e instalações trabalhem sobre o mesmo modelo, o que reduz fricção quando os consultores já operam no mesmo ambiente.
 
O Archicad parte de outra lógica. Oferece ferramentas pré-construídas para os elementos mais comuns da arquitetura, Parede, Laje, Telhado, Escada, Parede Cortina, com parâmetros de ajuste no momento da inserção. Para os casos cobertos, o trabalho é mais rápido. Para casos atípicos, o usuário precisa empilhar ferramentas (Morph, Shell, GDL, Library Parts customizadas), o que exige mais técnica e mais tempo.
 
Sobre as vistas de planta: o Revit gera plantas com mais fidelidade ao corte horizontal real do modelo. Em projetos com elementos suspensos, mezaninos ou geometrias ambíguas em altura, isso é uma vantagem prática. No Archicad, a representação 2D admite ajustes próprios sobre a camada do modelo, o que dá mais controle sobre o documento gráfico final, mas exige mais intervenção manual.

navegação 3D

 

Esse é um ponto que para a gente pesa muito, e onde a diferença entre os dois softwares é gritante. A navegação 3D do Archicad lembra muito a do SketchUp em usabilidade: a câmera responde como a gente espera, gira em torno do que o cursor está olhando, e dá a sensação de estar atravessando o edifício em vez de operar um software. Não é cem por cento como caminhar, mas é muito mais perto disso do que ter que configurar câmera e ajustar perspectivas manualmente a cada momento. As cenas se salvam com facilidade, e os modos de visualização cobrem bem o que a prática pede: com linha ou sem linha, com sombra ou sem sombra, perspectiva ou axonometria, tudo a um clique. E quando o trabalho exige precisão, o Archicad oferece controles completos de posicionamento de câmera, distância focal e ponto de fuga, surpreendentemente intuitivos para a profundidade que entregam.
 
No Revit, a navegação 3D é historicamente um dos pontos mais reclamados pelos próprios usuários. Por padrão, o ponto de rotação não fica em torno do que o cursor está olhando, o que em projetos grandes obriga o usuário a selecionar um elemento antes de cada órbita para que a rotação faça sentido visualmente. As ferramentas auxiliares, ViewCube e SteeringWheels, ajudam, mas dependem de cliques precisos em elementos pequenos da tela e quebram o fluxo. Em modelos densos, a navegação trava com frequência, a ponto de a própria Autodesk recomendar, em sua documentação de suporte, desativar a opção “Allow Navigation During Redraw” como solução de contorno. Quem alterna entre os dois softwares percebe na primeira meia hora.

saída gráfica

Esse é outro ponto consistentemente reconhecido como vantagem do Archicad. A documentação que sai do software, pranchas, plantas, cortes, detalhes, chega à qualidade de publicação com pouco ajuste. O motor de hatches, o controle de canetas e cores, a consistência entre vistas e o sistema de Layout Book foram desenhados pensando no documento gráfico final. O Revit produz documentação tecnicamente correta, mas a estética padrão é mais funcional, e refinar layouts dá mais trabalho.
 
Para visualização 3D, ambos exportam para os principais renderizadores (V-Ray, Enscape, D5, Lumion, Twinmotion). O Archicad tem integração nativa com Cinema 4D e suporte direto ao Twinmotion. O Revit ganha em integração com a stack da Autodesk: 3ds Max, Forma, e agora o Forma Carbon Insights direto no ribbon.

plugins, comunidade, ecossistema

Aqui o Revit ganha. O ecossistema de plugins, scripts Dynamo, packs gratuitos e pagos, fóruns ativos, canais de YouTube e sessões da Autodesk University é, em tamanho, várias vezes maior que o equivalente da Graphisoft. Para problemas técnicos raros e específicos, a chance de existir um plugin ou um tutorial é muito maior no Revit. Ambos têm conexão com Rhino e Grasshopper, mas o Rhino.Inside.Revit amadureceu mais rápido e é hoje considerado mais robusto pela comunidade de design computacional.

sustentabilidade e LCA

Esse é um campo de pesquisa em ascensão acelerada e, no momento, é onde o Revit opera de forma mais eficiente. O Forma Carbon Insights, que substituiu o Autodesk Insight, vem incluso na assinatura do Revit e permite avaliar carbono incorporado e operacional ainda na fase esquemática. Para escritórios sob pressão de metas de sustentabilidade, certificações ou exigências contratuais de relato de carbono, hoje é um diferencial real. O Archicad tem corrido atrás, com caminhos pelo EcoDesigner Star e integração com One Click LCA via plugin. É um campo em movimento, e a distância entre os dois pode mudar nos próximos anos.

IA e integração com agentes

Ambos os softwares lançaram assistentes de IA recentemente, em ritmos parecidos. O Archicad 29 trouxe o AI Assistant em beta, focado em queries do modelo e geração de visualizações via AI Visualizer 2.0. O Revit 2027 trouxe o Autodesk Assistant, também em tech preview, capaz de operar tarefas dentro do modelo via linguagem natural. As duas iniciativas estão na mesma faixa de maturidade: promissoras, ainda imperfeitas, em desenvolvimento ativo.
 
O ponto mais interessante é a integração com agentes de IA externos via MCP (Model Context Protocol). De forma simples: o MCP é um padrão aberto que permite que uma IA como o Claude ou o ChatGPT “fale” com qualquer programa que aceite o padrão, sem precisar de uma ponte específica para cada combinação. O Revit 2027 já vem com um servidor MCP oficial. O Archicad ainda não tem o seu, mas existem projetos open-source maduros que cumprem o papel, o archicad-mcp de Luka Gradišar e o tapir-archicad-MCP da comunidade Tapir. Em paralelo, o Cowork, ferramenta da Anthropic lançada no início de 2026, dá ao Claude acesso direto ao sistema de arquivos do computador, abrindo caminho para combinar agentes de IA com modelos BIM no dia a dia do escritório. Tudo ainda é experimental, mas vale começar a experimentar agora, antes que vire pré-requisito.

síntese

Revit é o software certo para escritórios grandes, com produção multidisciplinar já consolidada, dentro do mesmo ecossistema. Archicad é o software certo para escritórios pequenos e médios, com foco em arquitetura autoral, onde a saída gráfica importa, especialmente em Mac. Há gradientes entre os dois, e cada escritório vai pesar diferente.

parte 2, por que escolhemos Archicad

Em 2018, o Estúdio Módulo, escritório dos sócios Erica Tomasoni, Guilherme Bravin e Marcus Damon, venceu o concurso nacional para o primeiro edifício do Ágora Tech Park, em Joinville. Foi o nosso primeiro projeto BIM de verdade, não no sentido de “modelado em 3D”, mas no sentido de processo coordenado, com biblioteca e template, com nomenclatura, com estratégia de organização do modelo. Tínhamos uma decisão a tomar antes de começar: Revit ou Archicad?
 
A escolha pesou em várias direções. O escritório era, e é, pequeno e em crescimento, e o custo da licença Archicad por estação saía mais em conta do que a solução oferecida pela Autodesk. Parte da equipe já tinha tido contato com Archicad em outros lugares, o que reduzia o tempo de adaptação. E havia o ponto da estética: a documentação que saía do Archicad estava mais próxima da linguagem que o escritório já praticava em AutoCAD.
 
O Ágora Tech Park foi o primeiro. Depois vieram mais dois edifícios para o mesmo cliente, o MOB e o UNI, também em Archicad, agora como continuidade natural. Ao longo desses sete anos, a equipe foi aperfeiçoando templates, bibliotecas e estratégias de organização, e a curva de produtividade ficou mais íngreme. Hoje estamos tocando dois projetos importantes inteiramente em Archicad: o Oscar 2525, com a IdeaZarvos, e o Centro Cultural Rio África, vencedor do concurso internacional de 2024.
 
Os sócios do Estúdio Módulo sempre foram entusiastas de Apple, mas o parque de máquinas do escritório só foi totalmente migrado para Mac no fim do ano passado, com a chegada dos novos Mac Mini. Uma review desses computadores vai sair aqui na curadoria em breve. A escolha do Archicad em 2018 não foi por causa do Mac, mas a migração reforçou a decisão: pelos motivos discutidos na Parte 1, o Archicad é hoje o único BIM que roda em macOS com a maturidade que a produção do escritório exige.

os outros motivos

Curva de aprendizado. Pessoas novas no escritório, vindas de SketchUp, AutoCAD ou de cursos universitários onde o BIM foi superficial, conseguem produzir em Archicad em poucas semanas. Em uma análise da Capterra de 2025, o Archicad pontuou 4,2 de 5 em facilidade de uso, contra 4,0 do Revit. A diferença numérica é pequena, mas no dia a dia da equipe ela aparece.
 
Saída gráfica. Para o CURA, esse ponto é fundamental. Publicamos, ensinamos, mostramos desenho daquilo que produzimos na prática. A documentação que sai do Archicad, pranchas, detalhes, plantas, exige menos pós-produção e tem uma estética que nos representa melhor. Para um escritório onde o desenho é parte da identidade, isso pesa.
 
Continuidade. Sete anos de arquivos, templates, bibliotecas e fluxos consolidados. Trocar de software hoje seria uma decisão técnica e cultural enorme, que precisaria de razões muito boas pra valer o custo. Não temos.

onde o archicad pode melhorar

Mas nem tudo são flores, a modelagem de elementos complexos, fachadas atípicas, guarda-corpos com perfis específicos, coberturas com geometria não-ortogonal, soluções novas de esquadrias, escadas... exige combinar várias ferramentas e operações, frequentemente usando recursos para finalidades para as quais eles não foram desenhados. Para criar uma bancada com perfil específico, é comum usar a ferramenta de viga segmentada com perfis complexos. Na cobertura do Centro Cultural Rio África, foi necessário operar a ferramenta de parede cortina por uma malha para chegar ao efeito que o projeto pedia. As soluções funcionam e são suficientemente precisas, mas o caminho até elas exige paciência e às vezes três ou quatro arquitetos atrás da mesma tela.
 
A coordenação com consultores de estrutura e instalações é outra área onde o Revit tem ecossistema mais amigável. A nossa rotina passa por IFC e por comunicação direta, que funciona, mas é menos automática.
 
Não são razões para trocar. São razões para não fingir que a escolha é perfeita.

um recorte do mercado brasileiro

Em um levantamento informal entre escritórios brasileiros de arquitetura autoral, escritórios com projeto de arquitetura como produção principal, a presença do Archicad é maior do que o discurso geral sugere. Entre os escritórios da nossa amostra que adotaram BIM, a maioria escolheu Archicad: Bernardes Arquitetura, Jacobsen Arquitetura, Konigsberger Vannucchi, Gui Mattos, Biselli Katchborian, FGMF, Natureza Urbana, MMBB, e o próprio Estúdio Módulo. Pelo lado do Revit aparecem nomes igualmente fortes: Studio Arthur Casas, Studio MK27, Hype Studio, mf+arquitetos, Seferin Arquitetura, Triptyque, Architects Office e Bacco. Outros escritórios usam SketchUp como ferramenta principal de criação (Isay Weinfeld, Superlimão), com BIM entrando em fases posteriores.

o contexto do ensino no Brasil

Em julho de 2025, foi homologada a Resolução CNE/CES nº 1, que institui as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Arquitetura e Urbanismo, coordenada pela ABEA em conjunto com IAB, AsBEA, ABAP, FNA, FeNEA e CAU/BR. A nova resolução estabelece o domínio de ferramentas de modelagem da informação de projeto como competência obrigatória dos egressos, e lista laboratórios de Modelagem e Fabricação Digital e de modelagem paramétrica e simulações de desempenho entre a infraestrutura obrigatória dos cursos. Os cursos têm dois anos para implementar. Some-se a isso o Decreto nº 10.306/2020, atualizado pela Estratégia BIM BR (Decreto nº 11.888/2024) e pela Lei 14.133/2021, que estabelece o uso preferencial do BIM em obras públicas federais. Em nenhum dos textos legais o BIM está amarrado a software específico.
 
A pergunta “qual software ensinar” é, portanto, secundária em relação a “como ensinar BIM”.

a próxima parte

Esse texto é introdutório. A discussão técnica, organização de modelos, hotlinks, gestão de bibliotecas, classificação e soluções concretas para problemas reais, vai sair em parceria com a Erica Tomasoni, que coordena a produção BIM dos nossos projetos atuais e tem na mão a experiência operacional que vale dividir.

referências

Referências consultadas: NBS Digital Construction Report; European Architectural Barometer (USP Marketing Consultancy, 2021); reviews comparativas em illustrarch.com (mar/2026), myarchitectai.com, archilabs.ai e Architosh (abr/2026); Resolução CNE/CES nº 1, de 11 de julho de 2025 (Ministério da Educação); Decretos 10.306/2020 e 11.888/2024 e Lei 14.133/2021 (Planalto); documentação Graphisoft Community e graphisoft.com; documentação Autodesk Revit 2027 (autodesk.com/blogs/aec); Anthropic, página oficial do Cowork e do Model Context Protocol; archicad-mcp (github.com/lgradisar/archicad-mcp) e tapir-archicad-MCP (github.com/SzamosiMate/tapir-archicad-MCP); listas de escritórios usuários: Migra BIM (migrabim.com) e Construtora Virtual (construtoravirtual.com.br).

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